sábado, 12 de outubro de 2013

TODO CÂMERA É DIRETOR DE FOTOGRAFIA?

Hoje eu esclareço mais sobre a função de diretor de fotografia, com base na descrição do documento sobre atividades profissionais, feito pelo Centro Profissional do Setor Audiovisual. Elaborado com a participação de 50 profissionais de Portugal.
Mas antes eu gostaria de alertar sobre outra distorção do mercado audiovisual local. Câmera é um e Diretor de Fotografia é outro. Se eu estou trabalhando sozinho, posso ser os dois. Posso, mas não quer dizer que sou… Serei se estiver tendo o cuidado de planejar minha imagem com base nas orientações do diretor ou do roteiro que estou gravando, nas absurdas e frequentes ocasiões que não tem diretor. Mas se estou captando imagens a esmo, tendência comum no digital, sem levar em conta a natureza do discurso proposto, sou apenas um câmera desorientado, ou seja, sem direção. E se não conheço as especificidades dos planos e por isso não sigo o roteiro adequadamente, nem câmera eu sou. Pelo menos não profissional. Mais uma vez, hoje somos técnico de futebol, diretores do audiovisual e principalmente fotógrafos, já que todos tiramos fotos, mas, Fotógrafo não é aquele que bate mil fotos pra tirar uma boa, fotógrafo bate dez e vc pode escolher algumas boas.


Para aqueles que querem e precisam conhecer o trabalho profissional de um diretor de fotografia, aqui está:

Diretor de Fotografia - Missão
Define, juntamente com o diretor, a concepção visual do filme, e garante artisticamente e tecnicamente a sua exequibilidade durante todas as fazes da produção.
Assina, como responsável máximo, a autoria da imagem do filme ou produto Audiovisual.

Atividades
Pré-produção:
  • 
Criação, juntamente com o diretor, de um conceito visual e estético para o filme.
  • Escolha do equipamento e processos técnicos a utilizar durante a rodagem e pós-produção de imagem
  • Aprovação dos locais de filmagem em colaboração com a produção e departamento de Decoração.
  • Escolha dos seus colaboradores mais diretos (operador de câmera, 1o assistente, chefe iluminador, chefe maquinista), e juntos destes, organização de todas as equipes e profissionais que possam ser necessários, incluindo colaboradores extraordinários.
  • Definição, juntamente com a sua equipe, de todas as correntes de trabalho e suas necessidades técnicas.
Rodagem:
  • Organiza todos os meios técnicos e humanos ao seu dispor com vista a uma rodagem sem entraves para o diretor ou outros intervenientes na produção.
  • Ajuda a definir, com o diretor e operador de câmera, a colocação e movimentos da câmara em relação aos outros elementos presentes.
  • Garante como responsável final a correta execução de todas as necessidades técnicas com vista à recolha sem falhas de todas as imagens para o filme
  • Ajuda a integrar qualquer necessidade especial de outros departamentos durante a rodagem, nomeadamente efeitos especiais, som, decoração, etc.
  • Pode acumular a tarefa de operador de câmera:
Controla, junto dos meios de pós-produção, a integridade técnica e estética das imagens de cada dia
Pós-Produção:
  • Supervisiona todos os tipos de correção final que se façam à imagem, com o objetivo de manter a coerência do conceito visual estabelecido anteriormente com o diretor.
  • Aprova todas as características da imagem do filme na sua versão acabada, nos vários suportes de distribuição.
Saberes
  • Conhecimentos profundos de técnica fotográfica.

  • Conhecimentos profundos da linguagem cinematográfica nos seus mais variados estilos e gêneros. 
  • Conhecimentos sólidos de técnicas de iluminação.

  • Conhecimentos sólidos de operação de câmaras , independentemente do formato.
  • Conhecimentos sólidos de técnicas de Pós-produção de imagem.

Saberes – fazer técnicos
  • Compreender as especificidades de cada projecto e saber proporcionar ao diretor o resultado pretendido libertando-o de qualquer carga técnica desnecessária.
  • Dominar totalmente a técnica fotográfica.

  • Conhecer a linguagem cinematográfica nos seus mais variados estilos e gêneros.


Saberes – fazer sociais e relacionais
  • Vontade criativa e de experimentação.
  • Interesse cultural e sensibilidade visual.
  • Capacidade de trabalho em equipe.
  • Grande sentido de diplomacia.
  • Capacidade de manter a calma e a concentração em situações de grande tensão e durante períodos longos de trabalho.
  • Rápida adaptabilidade a novas tecnologias ou métodos de trabalho menos comuns.
Em breve vamos discutir orçamentos. Item muito polêmico e necessário. Acompanhem...

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O QUE É UM EDITOR DE CINEMA E VÍDEO?

Muitas vezes me perguntaram, "… O que é que vc faz mesmo?" ou "Como é o trabalho do editor de cinema e vídeo?". Para esclarecer as pessoas interessadas resolvi postar uma parte de um trabalho feito em Portugal, que define de forma bem simples e objetiva as atividades desenvolvidas pelo editor, e os saberes necessários para tal.
Serve para esclarecer o público, empregadores e outros profissionais do audiovisual, como também diferenciarmo-nos dos "motions", artistas gráficos que inadvertidamente são utilizados na função de editor. Vamos lá...




Atividades do Editor de Cinema e Vídeo

  • Pode analisar o argumento/roteiro aconselhando aspectos técnicos de montagem e estruturais.
  • Reúne com o/a realizador/a e/ou produtor/a para compreender os temas do filme, a sua linguagem específica e finalidade.
  • Visiona o material disponibilizado procurando as suas potencialidades expressivas e narrativas.
  • Define uma leitura ou interpretação pessoal do material disponibilizado, respeitando os objetivos artísticos/cinematográficos propostos pelo realizador/a, argumentista e/ou produtor/a, para elaborar uma primeira hipótese de estrutura discursiva.
  • Organiza, sincroniza, classifica, escolhe e alinha os elementos criativos, imagem e som, segundo o argumento/roteiro e/ou as indicações do realizador/a de acordo com critérios técnicos e artísticos.
  • Aconselha, quando necessário, filmagens de cenas acessórias imprescindíveis à estrutura do filme. 
  • Cria e organiza as diversas bandas de diálogos, efeitos sonoros, ambientes e música.
  • Visiona o filme em conjunto com o/a Realizador/a e Produtor/a, a fim de fazer as correções necessárias valorizando a coerência discursiva e estilística.
  • Executa todos os trabalhos relacionados com a colagem e justaposição dos planos e cenas a fim de restituir unidade e continuidade narrativa.
  • Gera a lista de cortes tendo em vista a montagem do negativo, quando necessário.
  • Pode escolher assistentes que o/a ajudarão a concretizar o seu trabalho, sendo responsável por todo o trabalho que executarem.
  • Coordena, supervisiona ou acompanha o processo de finalização da pós-produção colaborando no diálogo técnico e artístico das etapas de colocação da banda sonora, mistura de som, genéricos e masterização final.

Saberes
  • Conhecimentos profundos de teoria e técnica da Linguagem Cinematográfica.

  • Conhecimentos sólidos de Produção Cinematográfica e Audiovisual.

  • Conhecimentos sólidos de utilização de equipamento e/ou software informático de montagem/edição.
  • Conhecimentos sólidos de História da Arte, nomeadamente Artes Visuais, Teatro, Música, Fotografia.
  • Conhecimentos sólidos de Dramaturgia.

  • Conhecimentos fundamentais de Língua Portuguesa.

  • Conhecimentos fundamentais de Línguas Estrangeiras (sobretudo vocabulário técnico Inglês).
  • Conhecimentos fundamentais de Cultura Geral.

  • Noções básicas de relações interpessoais.

  • Noções básicas de informática na óptica do utilizador.

Saberes – fazer técnicos

  • Ler e interpretar roteiros cinematográficos/audiovisuais.

  • Avaliar a qualidade e potencial do material disponibilizado.
  • 
Utilizar métodos e técnicas de montagem/edição.
Identificar os elementos expressivos e narrativos importantes na estrutura do filme.
  • Traduzir e expressar idéias, temas e conceitos no filme, através da imagem e som.
  • Experimentar, investigar e desenvolver diferentes formas de montagem criativa do filme.
  • Definir, identificar e utilizar as aplicações informáticas específicas de montagem/edição.
  • Organizar e estabelecer planos de trabalho.
Selecionar possíveis colaboradores e/ou assistentes.
  • Identificar e conhecer as caraterísticas da imagem e som.
Identificar as características dos equipamentos audiovisuais e dos diferentes suportes e formatos.
  • Identificar e solucionar os problemas de execução técnico artística.

  • Organizar e sistematizar o funcionamento do processo de montagem.

Saberes – fazer sociais e relacionais
  • Demonstrar criatividade, imaginação e sensibilidade.

  • Demonstrar autodisciplina, organização e determinação.

  • Saber ouvir, compreender, reconhecer e executar as indicações do/a Realizador/a e ou produtor/a.

  • Analisar situações concretas, propor e/ou decidir sobre as soluções mais adequadas na resolução das mesmas.
  • Comunicar idéias a outros.
  • Desenvolver capacidade de análise, de reflexão e de autocrítica. 
  • Demonstrar capacidade de concentração e atenção aos detalhes.
  • Evidenciar pragmatismo, sentido prático e de gestão de tempo. 
  • Trabalhar individualmente e/ou em cooperação.
  • Adaptar-se a diferentes situações e contextos.

  • Transmitir confiança ao Realizador/a e/ou produtor/a.

  • Demonstrar exigência perante o seu próprio trabalho.

  • Gerir o stress e a ansiedade gerada pela necessidade de trabalhar sob pressão.
Por este texto dá para concluir que a formação de um editor não se faz em cursos breves de algumas semanas. No nosso caso se faz com a dedicação e determinação de quem se interessa pela edição.
Em breve postarei de outras atividades profissionais do audiovisual. Só para esclarecer...

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O COMPROMETIMENTO COM O AUDIOVISUAL

Bem, nós voltaremos a falar de edição. Mas agora vamos falar do audiovisual como um todo. A edição é fundamental, como todos nós sabemos, mas em geral está longe do poder decisório das peças audiovisuais que monta. Salvo os casos de trabalho autoral, quando fazemos como a vanguarda russa da década de 20 e viramos diretores-montadores, o poder de decisão dos editores limita-se ao manuseio da linguagem, aplicando-a e/ou subvertendo-a para transmitir a idéia do diretor.
Mas além de editor, também fui produtor por uns 15 anos, escrevi e participei de muitos projetos, de diversas áreas, além do audiovisual inclusive, e conheci, convivi com o poder decisório de diversos níveis e diversos tipos, e observei algumas peculiaridades.



Primeiro vamos derrubar um mito, que tanto serve para o audiovisual como para diversas outras atividades onde há uma relação de produção e direção, mas é no audiovisual que esse mito foi incorporado como máxima; não é tudo culpa da produção… a direção também erra, e às vezes muito mais do que se imagina.
No audiovisual, como no cinema, toda a produção gira em torno do diretor para que ele possa por sua idéia na peça que ele visualiza. É o capitão do barco, ele nos guia para que executemos o nosso trabalho, específico de cada tripulante, para que ele possa navegar pelas águas calmas ou turbulentas da sua imaginação.
Mas infelizmente muitos encaram o cargo de diretor apenas como o cara que manda e os outros obedecem. Até aí tudo bem, é o mal do poder, é o lado sombrio que está na cabeça dos homens e que temos que aprender a evoluir, e muitos não conseguem, é verdade. Mas como eu disse nas postagens anteriores, a linguagem audiovisual de hoje é uma coisa nova, e o despreparo da maioria dos profissionais, num mercado confuso e de crescimento exponencial, não atinge apenas editores mas todas as atividades profissionais. Sendo que, no caso dos diretores, pelo poder que exercem, sendo muitas vezes o financiador, ou seja, atuando como produtor executivo, seus erros tendem a comprometer a qualidade dos processos executados, e por conseguinte às vezes, a qualidade do produto final.
E como havia dito antes, no Brasil todo mundo é diretor. Como técnico de futebol. Mas para eu entrar num clube eu tenho que ter meu diploma de Educação Física pra ser técnico, no mínimo. No audiovisual basta dinheiro pra montar a produtora e contratar os técnicos. Sou o dono… eu dirijo. Sou o dono da bola… eu jogo no ataque.
Mas se o diretor errar, a culpa é da produção.

Essa controversa questão nos remete a outra numa esfera mais acima, e que atinge na verdade todas as profissões. E sei que esta tem complexidades técnico-administrativas e de gestão que torna meu questionamento até ingênuo no mundo capitalista, como pode também parecer a questão acima, mas serve como exercício de reflexão. O Secretário de Educação, não deveria ser um educador? O de Ciência e Tecnologia, não deveria ser um pesquisador? O de finanças, economista… e assim por diante? Na maioria das vezes são apenas políticos. Sem nenhum trabalho representativo na área e sem nenhum comprometimento, o mais grave da questão. Se é assim nas altas esferas do poder, imagine nas esferas inferiores, dos pequenos poderes.

O audiovisual, hoje seara dos aventureiros, não seria diferente. É cheio de acadêmicos, sociólogos, antropólogos, historiadores, políticos e outros, que justificam suas posições pelo conteúdo que trazem para o audiovisual, utilizando-o apenas como um saber técnico, desconhecendo a linguagem (que a base é o cinema), e aplicando sua experiência intuitiva como verdade absoluta na difusão de suas idéias. Ora, o cinema é um curso acadêmico e hoje o audiovisual também. Então à frente do audiovisual deveríamos ter gestores, diretores e produtores com essa formação, ou os mesmos acadêmicos com uma formação complementar. Isso poderia criar o vínculo que falta; o comprometimento das pessoas que dirigem e chefiam com a linguagem e o mercado audiovisual.
Há muitas exceções, onde a formação transdisciplinar funciona, sendo muito benvinda inclusive, mas só nos casos onde há um conhecimento e reconhecimento da linguagem. Infelizmente uma minoria. A maioria dos que estão à frente do audiovisual, especialmente os pequenos gestores, produtores e administradores, além de desconhecerem a linguagem, não tem comprometimento algum com a evolução do mercado audiovisual, utilizando-se dele apenas para gerar receita ou como suporte de aspirações políticas dentro da carreira em que se formaram originalmente.
O exemplo disso é a vinculação dos profissionais do audiovisual com o sindicato dos radialistas. A falta de sindicato próprio e a fraca representatividade das associações existentes evidencia essa falta de comprometimento dos líderes que atuam no setor.
Todo mundo quer fazer seu filme ou seu evento ligado ao audiovisual, mas ninguém se interessa em organizar essa bagunça.

Ainda é assim; se o diretor errar, a culpa é da produção. Essa é a máxima correta.

Na próxima postagem vamos falar de orçamentos.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

PROCURA-SE ASSISTENTES

A segunda distorção do mercado do audiovisual refere-se à figura do assistente. Seja ele qual for; de direção, câmera, som, produção ou edição. Nos mercados mais evoluídos, em grandes produtoras reduziu-se o número, mas em médias e pequenas produtoras, desapareceu. E em mercados descentralizados e menos evoluídos, em alguns casos já nasceu morto, ou seja, a prática do audiovisual se desenvolveu sem eles, ou pior, com eles à frente da função que deveriam auxiliar. Porque seria…



O audiovisual profissional como o que reconhecemos hoje, "nasce" com o equipamento digital. Antes tínhamos o cinema, pai da linguagem utilizada pelo vídeo, os formatos da TV U-Matic e Betacam, restritos ao mundo da TV e da publicidade, e o VHS e SuperVHS, conhecido como vídeo amador. O cinema era profissional e o vídeo era amador, simples assim. Os formatos U-Matic e Betacam eram vídeos profissionais mas de um meio restrito, e utilizavam o mesmo modus operandi do cinema.
Com a revolução digital o vídeo passa a adquirir qualidade ao mesmo tempo que se populariza. O mercado cresce e a nova atividade (antigo vídeo amador) passa a se chamar audiovisual (não se chamava de vídeo para se diferenciar do antigo VHS, na falta de um nome melhor tiraram esse das escolas, já que nas escolas ninguém ligava pro audiovisual). Quando chegamos ao HD, parece que chegamos a uma nova era. O vídeo com qualidade profissional, popularizado e democratizado, ao alcance de todos.

Isto é certo, para a técnica, mas não para a linguagem. A linguagem é uma herança direta dos 100 anos de cinema. Desenvolveu-se com o trabalho profissional de inúmeros técnicos e pensadores ao longo desse tempo. Como toda linguagem tem suas mutações, suas modificações, em função dos agentes, do meio e do tempo em que está inserida, mas a base está lá para ser alterada. A base do audiovisual é a linguagem do cinema, narrativo, documental e experimental.
E o cinema é caro. Insumos, equipamentos e processos são todos caros. Seus profissionais também são caros porque exige tempo e determinação para se formarem como tais. Como em todo segmento profissional, aliás. E tem suas regras, desenvolvidas para que esse custo, mesmo caro, se torne racional. Uma das mais características é; um especialista em cada função. Como uma atividade especialmente coletiva, essa regra é "de ouro". E como cada especialista é caro, 3 ou 2 assistentes para cada função, no mínimo, fazem com que o titular esteja focado apenas na qualidade do seu trabalho e não desperdice seu precioso tempo atrás de resolver problemas menores, como anotar alguma coisa, trocar o rolo de filme etc.
Já o audiovisual profissional, ou seja, com qualidade de imagem, é barato. E muito barato se compararmos ao cinema. Insumos, equipamentos e processos são muito mais baratos. E isso foi um dos motivos de se transformar numa atividade econômica crescente, a rentabilidade. Economizou-se nas câmeras, cada vez mais baratas, nas fitas, que chegaram a deixar de existir, nos processos, abolindo o laboratório, custoso e penoso para quem fica distante, mas exageraram e passaram a economizar nos profissionais também. A remuneração é compreensível, apesar de que o talento é o mesmo, mas como o valor da produção não, se compreende. Mas a economia, exagerada a meu ver, no número de profissionais utilizados é outra distorção grave para o meio. É a ganância falando mais alto, e a redução de custos prevalecendo sobre a qualidade do trabalho.

Essa redução caiu em cheio na cabeça dos assistentes. Os fotógrafos, tradicionalmente quem mais manda depois do diretor, assim como eles, ainda seguram pelo menos um assistente cada, mas nem sempre. Na maioria das vezes há um acúmulo de funções e a falta total de assistentes. E quando há, como no caso da produção que só trabalha se tiver assistente, o pagamento é tão pouco que dificilmente se encontra alguém que tenha alguma experiência com a atividade. Esses se desiludem com a função de produtor (nada difícil) e o diretor de produção chama nova equipe de novatos na próxima produção. Agora, edição, som e até direção de arte, nem pensar. "Pague vc seu assistente".
É claro que não estamos pensando em termos o mesmo tanto de profissionais que o cinema, mas acabar com os assistentes na maioria das produções cria um outro problema. A assistência é como a residência médica, é o processo prático onde se formará o profissional. Um bom diretor se forma trabalhando como assistente de bons diretores, e assim por diante. Sem isso, o que acontece…
Essa distorção evolui para mais duas distorções do mercado. Eu, se quero ser câmera e ninguém me contrata como assistente, compro meu equipamento leio o manual e mesmo despreparado, me coloco no mercado… como câmera. Com um mercado que desconhece a linguagem e empregadores gananciosos é fácil entrar.
E a outra questão, que se tornou uma praga ceifando o profissionalismo do audiovisual, é o acúmulo de funções. Isto atingindo inclusive o som, uma das bases do AUDIO visual. Agora muitas vezes o câmera faz o som, ou o produtor… A que ponto nós chegamos.

Vamos pensar; se no cinema, referência do audiovisual profissional, cada pessoa tem sua função, como chegamos a isso no audiovisual digital, onde cada pessoa tem 2 ou 3 funções…
Resposta: o audiovisual digital hoje tem qualidade profissional, mas seu modus operandi é amador.

E vc vai me perguntar; quer dizer que eu não posso fazer um bom trabalho com mais dois colegas? Pode. E a capacidade técnica de vcs três vai determinar o resultado do trabalho. Se forem bons, o trabalho deve sair bom, mas mesmo vcs sendo profissionais e usando equipamentos de qualidade, a forma como fazem é amadora, e estão alimentando mais uma grave distorção do mercado audiovisual profissional.

Se o trabalho é profissional, seja profissional e não atue como um amador.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

EDIÇÃO E FINALIZAÇÃO DE VÍDEO

Pessoal, estou postando algumas conversas que eu tive com alguns profissionais do audiovisual, analisando o porque de atuarmos num segmento tão importante e haver tão pouca informação quanto ao mercado de trabalho local e seus profissionais. No momento este blog é para colocar por escrito algumas dessas conversas para que os pensamentos possam ajudar nessa reflexão. As fotos são apenas decorativas.

E hoje a conversa é sobre a edição e finalização da peça audiovisual (Para os que não são do meio, a peça audiovisual é qualquer vídeo; longa, curta, docTv, institucional ou VT comercial).




A maioria compreende que o resultado de uma gravação ou filmagem só se justifica quando a peça é editada, finalizada e pode ser vista pelo público a que se destina. Em termos comerciais, um cliente se orgulha de ter um Walter Carvalho fotografando sua peça, ou um Fernando Meireles na direção, mas ele só se satisfaz em definitivo com a peça pronta. Ele só efetiva o pagamento final, demonstração última do seu agrado, quando recebe o BluRay, DVD, pendrive, com a peça pronta, ou vê sua peça no veículo destinado, TV, internet ou outro. Isto é fato.
Para que isso seja possível é necessário que todo o material gravado, imagem e som, seja trabalhado na ilha de edição pelo editor e finalizado na mídia requerida, sem isso não há pagamento, e o responsável pela produtora terá que arcar com os custos do Walter Carvalho e do Fernando Meireles sozinho, o que evidentemente refletirá nos salários da equipe, não tão famosa assim.
Então a questão é a seguinte; se o editor tem toda essa importância para o dono da produtora, para a equipe inclusive, porque ele é quem vai valorizar todo o trabalho do set, porque estamos cada vez em menor número, somos cada vez menos valorizados e em alguns casos, chegamos nem a receber o devido pagamento? O audiovisual é um trabalho de equipe desde a sua concepção, mas para algumas pessoas tudo se resume ao set, e cansamos de ouvir frases como esta; "gastei toda a verba com a gravação, só tenho isso pra edição…", ou "temos só dois dias pra editar, tem que virar a noite, mas só vou poder te pagar os dois dias…" ou "a grana é pouca mas o teu nome vai ficar bem visto…" (lembrando que reconhecimento de trabalhador é pagamento).
Além desses desestímulos para um profissional vital para o audiovisual como o editor, vou citar algumas distorções do mercado audiovisual como um todo, que ampliaram o quadro de insatisfação, fizeram e fazem muitos profissionais bons abandonarem seu mercado natal, a atividade e às vezes até o audiovisual.


O Formato HD, 2K e 4K - Primeira distorção

O digital foi um grande avanço para a democratização do audiovisual. A melhoria da imagem e a simplificação do equipamento, tornou possível a difusão do audiovisual para todo mundo. Já na época da fita miniDV o acesso ao equipamento possibilitou diversas pessoas a ingressarem na atividade, uns de forma profissional e muitos de forma amadora. Uma festa de colégio nunca mais foi a mesma depois da popularização das câmeras.
Popularizou-se também, consequentemente, a edição por computador, conhecida como edição offline. O próprio computador e a internet passaram a ser comuns em lares e nas empresas, ratificando o que se passou a chamar de revolução do digital.
Pouco tempo depois temos a chegada do formato high definition, ou popularmente HD. A melhoria da imagem estendeu-se inclusive aos televisores domésticos e às pequenas câmeras de bolso, e mesmo sem entender exatamente o que significava, o público aderiu e tornou-se o formato padrão do mercado, tanto profissional quanto amador. Com a banda larga a prática de se registrar em vídeo ganhou o estímulo da internet, possibilitando a exibição dos vídeos e este é o quadro que temos hoje.
A edição offline profissional, que antes dependia de um equipamento caro e de uma placa de captura cara, no início da era digital (miniDV e DVcam) ganha impulso e fixa as bases de uma atividade econômica importante, que passa a atingir todas as classes e segmentos, e não mais apenas o cinema ou a TV.
A chegada do HD amplia a qualidade da imagem e por conseguinte amplia muito o trabalho do editor, que passa a trabalhar com uma imagem bem maior e mais pesada (5x mais), que leva mais tempo de processamento, que exige equipamento melhor e que ainda provem de diferentes câmeras com configurações diversas. Para uma atividade profissional recém instalada, essas modificações em tão pouco tempo mostraram-se danosas. O mercado ficou confuso mas pouca atenção se deu para as reclamações do editor.
Um tempo depois chega as DSLR (câmeras fotográficas profissionais que filmam com qualidade), e então a coisa complicou ainda mais. Pelo custo relativamente baixo do equipamento, os sets passaram a usar 3, 4 ou mais câmeras para gravar a mesma cena. Um grande avanço, sem dúvida, para o audiovisual, a despeito do aumento no volume de material na ilha e do trabalho do editor.

Agora a primeira distorção: mesmo com aumento no volume de material gravado (digital favorece essa prática), com aumento do peso dos arquivos, aumento do tempo de descarga e processamento e aumento do número de câmeras, que por conseguinte aumenta também o volume de material gravado, o editor não teve aumento nem de tempo, nem de remuneração. E ao contrário, como a atividade se popularizou, mesmo de forma amadora, o empregador teve a impressão de ter mais opções, e a remuneração caiu ainda mais. Ou seja, o trabalho se tornou mais complexo, e a remuneração do profissional diminuiu.

Ninguém quer saber o que rola na ilha, ninguém liga, ou melhor ligava. Com o formato 2K e 4K, duas e quatro vezes respectivamente, maior que o HD, o diretor está começando a se preocupar. Não com o profissional nem com sua remuneração, mas com o tempo que as coisas estão levando para serem finalizadas. Agora prestam atenção na ilha, quem sabe num futuro próximo lembram dos editores…

No próximo post vou falar de outras distorções, essa é só uma… tem mais...

terça-feira, 1 de outubro de 2013

NOSSA BAGAGEM FÍLMICA

Termo utilizado por Jean Claude Carriére no seu brilhante livro "A Linguagem Secreta do Cinema".
Ele conta que até os anos 50, em comunidades mais afastadas do mundo ocidental, como na África por exemplo, havia uma figura em pé junto à tela de exibição de um filme, conhecido como o explicador. Com uma vara na mão para auxiliá-lo, ele tinha a função de explicar o que estava acontecendo na tela, porque as pessoas não eram acostumadas a ver aquele tipo de imagem, e uma representação fiel da realidade causava espanto e angústia. As pessoas não tinham o que Carriére chama de bagagem fílmica. O que hoje temos em abundância desde pequenos.





Hoje somos acostumados à imagem em movimento desde tenra idade. Filmes, séries, programas, animações, shows, vemos o mundo todo com a naturalidade do sofá da sala, na intimidade do quarto ou em qualquer lugar que se esteja. Com a profusão de imagens, vulgarizamos nossa percepção, mas chegamos a construir um senso crítico intuitivo, o que muitas pessoas acham ser o suficiente para se relacionar com a imagem de forma profissional.
Na verdade é o ponto de partida para iniciar uma carreira e compreender a evolução da imagem em movimento, desde as experimentações no início do cinema até os dias atuais. Como em toda carreira, no audiovisual se deve ter informação prático-teórica e senso crítico intuitivo para se iniciar. E como em toda a carreira, o profissional tem que se atualizar e se reciclar, acompanhando a evolução técnica e teórica do segmento que escolheu.

Todos nós espectadores modernos, hoje temos nosso senso crítico da imagem apurado. Nossos gostos, preferências, podem até serem refinados e complexos, mas do mesmo modo que no Brasil todo brasileiro tem sua escalação para a seleção e "entende de futebol" porque se respira futebol desde o berço, todos nós temos nossos "melhores filmes", também se assiste TV desde esse tempo, e defendemos nossas posições com a sobriedade de especialistas. Resultado; hoje todo mundo "entende de audiovisual".
Como espectadores isso é certo para muita gente mesmo, mas como profissionais "entender" não basta, tem de realmente conhecer. Como um técnico de futebol que não baseia seu trabalho apenas na intuição, o profissional do audiovisual tem de conhecer os parâmetros, as estratégias que norteiam a atividade para que possa desenvolver um bom trabalho. A escalação da equipe é importante, e vc pode contar com grandes craques no seu time, mas isso só não basta como já vimos em copas passadas. As informações, os históricos, as estratégias possíveis, tem de serem vistas e estudadas para que possa tirar o melhor proveito do plantel que tem à mão.
Se vc é um espectador, entende os fundamentos básicos como qualquer torcedor, mas precisa conhecer os meandros para apurar sua crítica e não se deixar levar ou manipular pelas imagens expostas.
Se vc é um contratante do serviço de audiovisual, sua intuição pode lhe ajudar, mas conhecer o trabalho que pretende desenvolver, sua importância e o alcance, garantirá de forma mais eficiente a aplicação de seus recursos. Não havendo disponibilidade ou tempo hábil para tal, confie na opinião de um profissional experimentado tanto quanto em sua intuição, isso aumenta em muito a sua chance de acerto na contratação do serviço.

Todos nós brasileiros somos técnicos de futebol, e agora acumulamos a função de diretor do audiovisual.
Bagagem fílmica faz de vc um bom espectador, não um profissional do audiovisual.

Vamos valorizar o profissional do audiovisual...

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

SOBRE O AUDIOVISUAL

Este blog está renascendo agora com uma finalidade específica, discutir alguns aspectos do audiovisual produzido hoje, mercado, linguagem, obras e profissionais, mas principalmente a relação interdisciplinar do audiovisual com as diversas outras áreas do saber, e a importância que isto assume diante da força sugestiva e pedagógica das peças audiovisuais.



MEU MERCADO, CEARÁ

Pra iniciar a conversa estou sediado num mercado pequeno, Fortaleza, Ceará. A técnica pode ser equiparada aos grandes centros, mas pelo volume de trabalho há pouco espaço para experimentação e nenhum para a crítica. Com profissionais esgotados por um mercado desigual e caótico, dominado pelo empirismo, que força os experimentados a dividir o pouco mercado com os estreantes e aventureiros, sem haver o julgo do mérito dos contratados.
A falta de compreensão da linguagem audiovisual por parte dos contratantes, clientes, leva-os a contratarem pela avaliação do orçamento apenas, porém, sem subsídios para agregarem valor aos dados decidem pela intuição ou indicação, sendo às vezes indicação de quem conhece menos.
E a falta de preparo de estreantes, aventureiros e até de alguns experimentados, que às vezes compreendem apenas uma parte do audiovisual de forma mais intuitiva, não favorece a clareza das propostas apresentadas e não esclarece os contratantes quanto à dimensão e o alcance do audiovisual nos dias de hoje, apresentado nos mais variados espaços públicos e privados de todo o mundo.
Transformando boas idéias em peças desequilibradas e ineficientes, mantendo um nível baixo de rendimento econômico da atividade tanto para produtoras como para profissionais autônomos, maioria esmagadora, o mercado funciona como um grande laboratório de formação básica e empírica, exportando para o Brasil e para o mundo, técnicos de audiovisual experimentados que, ou saem à procura de evoluir na linguagem ou atrás de melhores mercados.

Na minha humilde opinião nossa Fortaleza carece de um espaço de crítica no mercado audiovisual. Onde se discuta de forma contextual o que se está fazendo, como se está fazendo, as propostas em que se estão investindo e principalmente se discuta, esclareça e desmistifique a linguagem para aqueles que a utilizam, contratantes e espectadores.
Nosso produto não tem um rótulo nem uma bula, muitos não sabem como é feito ou como utilizá-lo. Acho que temos que informar melhor o público consumidor para que seja consumido. E temos que nos informar melhor para que possamos fazer isso.

Este Blog é uma tentativa de discutir esse caos com meus diversos colegas de profissão, que pelo amor à Fortaleza, ou por outras razões, permanece aqui fazendo audiovisual. Contarei com a ajuda deles e de diversos outros espalhados por aí, para criarmos uma grande discussão sobre o audiovisual de Fortaleza, do Ceará, e a nossa participação no crescente e respeitado audiovisual nacional. Que este seja pioneiro mas não único, e que outros espaços de discussão do audiovisual cearense surjam e que formemos uma grande rede para melhorar nosso mercado através da compreensão e do reconhecimento da importância da linguagem.

Boa sorte para todos nós.