quinta-feira, 3 de outubro de 2013

PROCURA-SE ASSISTENTES

A segunda distorção do mercado do audiovisual refere-se à figura do assistente. Seja ele qual for; de direção, câmera, som, produção ou edição. Nos mercados mais evoluídos, em grandes produtoras reduziu-se o número, mas em médias e pequenas produtoras, desapareceu. E em mercados descentralizados e menos evoluídos, em alguns casos já nasceu morto, ou seja, a prática do audiovisual se desenvolveu sem eles, ou pior, com eles à frente da função que deveriam auxiliar. Porque seria…



O audiovisual profissional como o que reconhecemos hoje, "nasce" com o equipamento digital. Antes tínhamos o cinema, pai da linguagem utilizada pelo vídeo, os formatos da TV U-Matic e Betacam, restritos ao mundo da TV e da publicidade, e o VHS e SuperVHS, conhecido como vídeo amador. O cinema era profissional e o vídeo era amador, simples assim. Os formatos U-Matic e Betacam eram vídeos profissionais mas de um meio restrito, e utilizavam o mesmo modus operandi do cinema.
Com a revolução digital o vídeo passa a adquirir qualidade ao mesmo tempo que se populariza. O mercado cresce e a nova atividade (antigo vídeo amador) passa a se chamar audiovisual (não se chamava de vídeo para se diferenciar do antigo VHS, na falta de um nome melhor tiraram esse das escolas, já que nas escolas ninguém ligava pro audiovisual). Quando chegamos ao HD, parece que chegamos a uma nova era. O vídeo com qualidade profissional, popularizado e democratizado, ao alcance de todos.

Isto é certo, para a técnica, mas não para a linguagem. A linguagem é uma herança direta dos 100 anos de cinema. Desenvolveu-se com o trabalho profissional de inúmeros técnicos e pensadores ao longo desse tempo. Como toda linguagem tem suas mutações, suas modificações, em função dos agentes, do meio e do tempo em que está inserida, mas a base está lá para ser alterada. A base do audiovisual é a linguagem do cinema, narrativo, documental e experimental.
E o cinema é caro. Insumos, equipamentos e processos são todos caros. Seus profissionais também são caros porque exige tempo e determinação para se formarem como tais. Como em todo segmento profissional, aliás. E tem suas regras, desenvolvidas para que esse custo, mesmo caro, se torne racional. Uma das mais características é; um especialista em cada função. Como uma atividade especialmente coletiva, essa regra é "de ouro". E como cada especialista é caro, 3 ou 2 assistentes para cada função, no mínimo, fazem com que o titular esteja focado apenas na qualidade do seu trabalho e não desperdice seu precioso tempo atrás de resolver problemas menores, como anotar alguma coisa, trocar o rolo de filme etc.
Já o audiovisual profissional, ou seja, com qualidade de imagem, é barato. E muito barato se compararmos ao cinema. Insumos, equipamentos e processos são muito mais baratos. E isso foi um dos motivos de se transformar numa atividade econômica crescente, a rentabilidade. Economizou-se nas câmeras, cada vez mais baratas, nas fitas, que chegaram a deixar de existir, nos processos, abolindo o laboratório, custoso e penoso para quem fica distante, mas exageraram e passaram a economizar nos profissionais também. A remuneração é compreensível, apesar de que o talento é o mesmo, mas como o valor da produção não, se compreende. Mas a economia, exagerada a meu ver, no número de profissionais utilizados é outra distorção grave para o meio. É a ganância falando mais alto, e a redução de custos prevalecendo sobre a qualidade do trabalho.

Essa redução caiu em cheio na cabeça dos assistentes. Os fotógrafos, tradicionalmente quem mais manda depois do diretor, assim como eles, ainda seguram pelo menos um assistente cada, mas nem sempre. Na maioria das vezes há um acúmulo de funções e a falta total de assistentes. E quando há, como no caso da produção que só trabalha se tiver assistente, o pagamento é tão pouco que dificilmente se encontra alguém que tenha alguma experiência com a atividade. Esses se desiludem com a função de produtor (nada difícil) e o diretor de produção chama nova equipe de novatos na próxima produção. Agora, edição, som e até direção de arte, nem pensar. "Pague vc seu assistente".
É claro que não estamos pensando em termos o mesmo tanto de profissionais que o cinema, mas acabar com os assistentes na maioria das produções cria um outro problema. A assistência é como a residência médica, é o processo prático onde se formará o profissional. Um bom diretor se forma trabalhando como assistente de bons diretores, e assim por diante. Sem isso, o que acontece…
Essa distorção evolui para mais duas distorções do mercado. Eu, se quero ser câmera e ninguém me contrata como assistente, compro meu equipamento leio o manual e mesmo despreparado, me coloco no mercado… como câmera. Com um mercado que desconhece a linguagem e empregadores gananciosos é fácil entrar.
E a outra questão, que se tornou uma praga ceifando o profissionalismo do audiovisual, é o acúmulo de funções. Isto atingindo inclusive o som, uma das bases do AUDIO visual. Agora muitas vezes o câmera faz o som, ou o produtor… A que ponto nós chegamos.

Vamos pensar; se no cinema, referência do audiovisual profissional, cada pessoa tem sua função, como chegamos a isso no audiovisual digital, onde cada pessoa tem 2 ou 3 funções…
Resposta: o audiovisual digital hoje tem qualidade profissional, mas seu modus operandi é amador.

E vc vai me perguntar; quer dizer que eu não posso fazer um bom trabalho com mais dois colegas? Pode. E a capacidade técnica de vcs três vai determinar o resultado do trabalho. Se forem bons, o trabalho deve sair bom, mas mesmo vcs sendo profissionais e usando equipamentos de qualidade, a forma como fazem é amadora, e estão alimentando mais uma grave distorção do mercado audiovisual profissional.

Se o trabalho é profissional, seja profissional e não atue como um amador.

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