terça-feira, 1 de outubro de 2013

NOSSA BAGAGEM FÍLMICA

Termo utilizado por Jean Claude Carriére no seu brilhante livro "A Linguagem Secreta do Cinema".
Ele conta que até os anos 50, em comunidades mais afastadas do mundo ocidental, como na África por exemplo, havia uma figura em pé junto à tela de exibição de um filme, conhecido como o explicador. Com uma vara na mão para auxiliá-lo, ele tinha a função de explicar o que estava acontecendo na tela, porque as pessoas não eram acostumadas a ver aquele tipo de imagem, e uma representação fiel da realidade causava espanto e angústia. As pessoas não tinham o que Carriére chama de bagagem fílmica. O que hoje temos em abundância desde pequenos.





Hoje somos acostumados à imagem em movimento desde tenra idade. Filmes, séries, programas, animações, shows, vemos o mundo todo com a naturalidade do sofá da sala, na intimidade do quarto ou em qualquer lugar que se esteja. Com a profusão de imagens, vulgarizamos nossa percepção, mas chegamos a construir um senso crítico intuitivo, o que muitas pessoas acham ser o suficiente para se relacionar com a imagem de forma profissional.
Na verdade é o ponto de partida para iniciar uma carreira e compreender a evolução da imagem em movimento, desde as experimentações no início do cinema até os dias atuais. Como em toda carreira, no audiovisual se deve ter informação prático-teórica e senso crítico intuitivo para se iniciar. E como em toda a carreira, o profissional tem que se atualizar e se reciclar, acompanhando a evolução técnica e teórica do segmento que escolheu.

Todos nós espectadores modernos, hoje temos nosso senso crítico da imagem apurado. Nossos gostos, preferências, podem até serem refinados e complexos, mas do mesmo modo que no Brasil todo brasileiro tem sua escalação para a seleção e "entende de futebol" porque se respira futebol desde o berço, todos nós temos nossos "melhores filmes", também se assiste TV desde esse tempo, e defendemos nossas posições com a sobriedade de especialistas. Resultado; hoje todo mundo "entende de audiovisual".
Como espectadores isso é certo para muita gente mesmo, mas como profissionais "entender" não basta, tem de realmente conhecer. Como um técnico de futebol que não baseia seu trabalho apenas na intuição, o profissional do audiovisual tem de conhecer os parâmetros, as estratégias que norteiam a atividade para que possa desenvolver um bom trabalho. A escalação da equipe é importante, e vc pode contar com grandes craques no seu time, mas isso só não basta como já vimos em copas passadas. As informações, os históricos, as estratégias possíveis, tem de serem vistas e estudadas para que possa tirar o melhor proveito do plantel que tem à mão.
Se vc é um espectador, entende os fundamentos básicos como qualquer torcedor, mas precisa conhecer os meandros para apurar sua crítica e não se deixar levar ou manipular pelas imagens expostas.
Se vc é um contratante do serviço de audiovisual, sua intuição pode lhe ajudar, mas conhecer o trabalho que pretende desenvolver, sua importância e o alcance, garantirá de forma mais eficiente a aplicação de seus recursos. Não havendo disponibilidade ou tempo hábil para tal, confie na opinião de um profissional experimentado tanto quanto em sua intuição, isso aumenta em muito a sua chance de acerto na contratação do serviço.

Todos nós brasileiros somos técnicos de futebol, e agora acumulamos a função de diretor do audiovisual.
Bagagem fílmica faz de vc um bom espectador, não um profissional do audiovisual.

Vamos valorizar o profissional do audiovisual...

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