sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O COMPROMETIMENTO COM O AUDIOVISUAL

Bem, nós voltaremos a falar de edição. Mas agora vamos falar do audiovisual como um todo. A edição é fundamental, como todos nós sabemos, mas em geral está longe do poder decisório das peças audiovisuais que monta. Salvo os casos de trabalho autoral, quando fazemos como a vanguarda russa da década de 20 e viramos diretores-montadores, o poder de decisão dos editores limita-se ao manuseio da linguagem, aplicando-a e/ou subvertendo-a para transmitir a idéia do diretor.
Mas além de editor, também fui produtor por uns 15 anos, escrevi e participei de muitos projetos, de diversas áreas, além do audiovisual inclusive, e conheci, convivi com o poder decisório de diversos níveis e diversos tipos, e observei algumas peculiaridades.



Primeiro vamos derrubar um mito, que tanto serve para o audiovisual como para diversas outras atividades onde há uma relação de produção e direção, mas é no audiovisual que esse mito foi incorporado como máxima; não é tudo culpa da produção… a direção também erra, e às vezes muito mais do que se imagina.
No audiovisual, como no cinema, toda a produção gira em torno do diretor para que ele possa por sua idéia na peça que ele visualiza. É o capitão do barco, ele nos guia para que executemos o nosso trabalho, específico de cada tripulante, para que ele possa navegar pelas águas calmas ou turbulentas da sua imaginação.
Mas infelizmente muitos encaram o cargo de diretor apenas como o cara que manda e os outros obedecem. Até aí tudo bem, é o mal do poder, é o lado sombrio que está na cabeça dos homens e que temos que aprender a evoluir, e muitos não conseguem, é verdade. Mas como eu disse nas postagens anteriores, a linguagem audiovisual de hoje é uma coisa nova, e o despreparo da maioria dos profissionais, num mercado confuso e de crescimento exponencial, não atinge apenas editores mas todas as atividades profissionais. Sendo que, no caso dos diretores, pelo poder que exercem, sendo muitas vezes o financiador, ou seja, atuando como produtor executivo, seus erros tendem a comprometer a qualidade dos processos executados, e por conseguinte às vezes, a qualidade do produto final.
E como havia dito antes, no Brasil todo mundo é diretor. Como técnico de futebol. Mas para eu entrar num clube eu tenho que ter meu diploma de Educação Física pra ser técnico, no mínimo. No audiovisual basta dinheiro pra montar a produtora e contratar os técnicos. Sou o dono… eu dirijo. Sou o dono da bola… eu jogo no ataque.
Mas se o diretor errar, a culpa é da produção.

Essa controversa questão nos remete a outra numa esfera mais acima, e que atinge na verdade todas as profissões. E sei que esta tem complexidades técnico-administrativas e de gestão que torna meu questionamento até ingênuo no mundo capitalista, como pode também parecer a questão acima, mas serve como exercício de reflexão. O Secretário de Educação, não deveria ser um educador? O de Ciência e Tecnologia, não deveria ser um pesquisador? O de finanças, economista… e assim por diante? Na maioria das vezes são apenas políticos. Sem nenhum trabalho representativo na área e sem nenhum comprometimento, o mais grave da questão. Se é assim nas altas esferas do poder, imagine nas esferas inferiores, dos pequenos poderes.

O audiovisual, hoje seara dos aventureiros, não seria diferente. É cheio de acadêmicos, sociólogos, antropólogos, historiadores, políticos e outros, que justificam suas posições pelo conteúdo que trazem para o audiovisual, utilizando-o apenas como um saber técnico, desconhecendo a linguagem (que a base é o cinema), e aplicando sua experiência intuitiva como verdade absoluta na difusão de suas idéias. Ora, o cinema é um curso acadêmico e hoje o audiovisual também. Então à frente do audiovisual deveríamos ter gestores, diretores e produtores com essa formação, ou os mesmos acadêmicos com uma formação complementar. Isso poderia criar o vínculo que falta; o comprometimento das pessoas que dirigem e chefiam com a linguagem e o mercado audiovisual.
Há muitas exceções, onde a formação transdisciplinar funciona, sendo muito benvinda inclusive, mas só nos casos onde há um conhecimento e reconhecimento da linguagem. Infelizmente uma minoria. A maioria dos que estão à frente do audiovisual, especialmente os pequenos gestores, produtores e administradores, além de desconhecerem a linguagem, não tem comprometimento algum com a evolução do mercado audiovisual, utilizando-se dele apenas para gerar receita ou como suporte de aspirações políticas dentro da carreira em que se formaram originalmente.
O exemplo disso é a vinculação dos profissionais do audiovisual com o sindicato dos radialistas. A falta de sindicato próprio e a fraca representatividade das associações existentes evidencia essa falta de comprometimento dos líderes que atuam no setor.
Todo mundo quer fazer seu filme ou seu evento ligado ao audiovisual, mas ninguém se interessa em organizar essa bagunça.

Ainda é assim; se o diretor errar, a culpa é da produção. Essa é a máxima correta.

Na próxima postagem vamos falar de orçamentos.

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